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Água e petróleo, a mesma moeda

 Imprimir Amyra El Khalili | 09/10/2008 A | A
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A América Latina vive hoje uma guerra intestina, mas silenciosa, em pequenos focos espalhados pelo continente, mas que podem eclodir a qualquer momento num emaranhado de ações e convulsões sociais se não estivermos preparados para novos enfrentamentos econômicos e políticos.

As águas da América Latina de hoje podem ser, no futuro próximo, objeto de disputas sangrentas, como é hoje o petróleo do Oriente Médio.

Se o Oriente Médio sofre por ter seus recursos naturais espoliados, a América Latina sofre com a servidão ao sistema financeiro internacional. Sofre com a usura das altas taxas de juros, a especulação financeira, o endividamento e é vitimada pela corrupção endêmica.

A América Latina detém a maior biodiversidade do planeta, as maiores reservas de água doce do mundo. É rica em minérios, abriga as maiores florestas tropicais, extensos litorais paradisíacos, solo e climas diversificados, que garantem o vigor da produção agropecuária nos 365 dias do ano.

Construímos na América Latina a nossa cultura americana árabe, agregando valor à cultura miscigenada dos povos latino-americanos. O carisma, a vontade de trabalhar, a diplomacia e nossa maneira de ser deram a nós, árabes e descendentes, uma vantagem comparativa para negociar e realizar parcerias.

É esse exemplo de integração que nos dá a certeza de que só com o apoio, a união dos vários países, árabes em especial, nos investimentos, parcerias, joint-ventures é que sairemos da servidão  financeira que nos é imposta por um modelo econômico degradador e desumano pelos países ditos desenvolvidos.

Não faz sentido que os recursos obtidos pela exploração do petróleo árabe funcionem como lastro para o sistema financeiro que hoje os bombardeia.

Contra o capital excludente somente um novo capital inclusivo.

Contra uma globalização que tenta extorquir nossos recursos naturais e estratégicos, somente uma nova globalização cultural, inter-racial e inter-religiosa.

A América Latina possui todos os recursos naturais estratégicos que os países desenvolvidos necessitam para produzir bens de consumo na indústria, comércio e serviços. O Brasil tem posição estratégica na América Latina por sua dimensão continental, miscigenação e por concentrar o sistema financeiro do continente.

O mundo árabe tem sua economia centrada nos recursos energéticos não renováveis, um “privilégio” pago com milhares e milhares de vidas. Faz-se estratégico e vital migrar para a energia renovável,  com todo conhecimento e tecnologia acumulados ao longo de décadas por aqueles produtores de petróleo.

Por não ter água o mundo árabe não consegue produzir o que consome, nem gerar excedentes para exportação. Por isso é franco comprador de mercadorias in natura e industrializadas.

Infelizmente, pouco exportamos em linha reta para o mundo árabe, pois as rotas de comercialização ou foram reduzidas ou foram fechadas para os países em desenvolvimento. Produzimos laranja no Brasil, exportamos in natura ou suco para a Itália, onde é reprocessada e embalada com a marca  "made in Italy" e reexportada para os países árabes. Assim, ficamos com todos os riscos de produção, custos de financiamento, encargos e tributos, enquanto as indústrias estrangeiras ficam com a parte gorda dos lucros.

Temos fortes laços culturais que, se aliados à capacidade e desenvolvimento de tecnologias, poderiam se traduzir em grandes operações de trocas entre os países árabes com um intercâmbio e,  conseqüentemente, aquecer as economias árabe e latino-americanas.

Os fundos islâmicos não aplicam em juros, mas podem muito bem financiar a produção de longo prazo, desde que tenhamos também nesses contratos, a contrapartida dos investimentos de base em educação, saúde, agricultura, ciência, cultura, cooperativas de produção, entre outros.

Estudar uma estratégia para as rotas marítimas e aéreas é imprescindível para que as relações entre o Oriente Médio e América Latina se fortaleçam e intensifiquem, com ganhos para os dois lados.

No âmbito nacional e continental, é vital que parcerias e acordos garantam a preservação e o uso público e social das bacias hidrográficas e águas subterrâneas transfronteiriças. Trata-se não só de uma questão ambiental e social, mas de soberania e segurança internacional. A crise hídrica mundial que se prenuncia pode transformar o ora pacífico continente no cenário de disputas cruentas como as que têm lugar hoje no Oriente Médio.

Outro aspecto importante é aprofundar o estudo crítico das questões intrínsecas do Protocolo de Kyoto, recomendando cautela com negócios nos mecanismos de desenvolvimento limpo. O estabelecimento do mercado de carbono, através de créditos compensatórios, simplesmente reproduz o modelo econômico que é alvo de nossas críticas.

A alternativa é a estruturação de uma rede de investimentos, parcerias e comercialização, que garanta o monitoramento, a fiscalização e a orientação de negócios e projetos sócio-ambientais na América Latina.

Para debater esta questão na América Latina criamos o Projeto RECOs – Redes de Cooperação Comunitária, que  têm como objetivos o intercâmbio de experiências, a promoção e fomento da produção de  bens e serviços das comunidades regionais. O projeto atende às reivindicações da Agenda 21 – Pense Globalmente e Aja Localmente,  com a implantação da responsabilidade social empresarial, comércio justo e sustentabilidade em diversos programas educacionais.

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Amyra El Khalili
É economista professora de pós graduação com a disciplina "Economia Sócioambiental", presidente do Projeto BECE (Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais). É também fundadora da Aliança RECOs - Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras

COMENTÁRIOS
 
ODESSIO D. REIS 10/27/2008 9:58:53 PM
Perfeita analise professora Amyra , mas infelizmente ,estigmatizados com o título invisível, porem verdadeiro de QUINTAL dos EE.UU. estamos subjugados por um cerco COMERCIAL que nos impede de abraçarmos suas idéias tão brilhantemente esplanadas. A America Latina possue inúmeras opçãos de auto sustentabilidade e rapido acesso ao primeiro mundo , porém Grilhões comerciais impedem nossos movimentos assim como impedem iniciativas dos paises árabes ricos de estabelecer parcerias. Exemplificando: Países ricos podem comprar toda a produção agricola da America Latina ,reprocessa-la e vender como mencionado em sua análise, para paises árabes ricos, por outro lado esses mesmo paises árabes não tem "permissão" ou viabilidade comercial de contrapartida petroleo X produtos agrícolas industrializados, para comprar direto da America Latina sem o aval dos EE.UU que controla muito bem o seu quintal. De qual forma agradeço a análise e sugestão {position:absolute;clip:rect(480px,auto,auto,480

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