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Egito - Um momento delicado

 Imprimir Arabesq | 04/02/2011 A | A
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Consciencia Jeans

Lejeune Mirhan*

Quero a seguir, com base na literatura internacional a que tivemos acesso, tecer diversas considerações sobre a realidade desse histórico e estratégico país, sob diversos aspectos, citando, sempre que possível, a fonte.

1. A economia do país – o Egito vive um modelo econômico de absoluta inspiração neoliberal. Privatizou praticamente metade das suas antigas 300 empresas estatais, em especial as estratégicas. É o chamado capitalismo financeiro, que engordou as contas das famílias e grupos rentistas do país em detrimento da pauperização das amplas massas árabes. Como diz Pepe Escobar em seu blog, é como se o vírus latino-americano contra o neoliberalismo tivesse contaminado o Egito e todo o OM. O desemprego é elevadíssimo e a renda per capita não cresce há anos. O FMI dizia para todo o mundo que o Egito era um “modelo de economia a ser seguido” (corte de gastos, juros altos, sem controle de câmbio, arrocho salarial... aliás, muito parecido com as primeiras medidas do governo brasileiro). Esse é o contexto econômico em que ocorreram as manifestações na Praça Tahrir (Praça da Liberdade);

2. A Questão política – o Egito e qualquer outro país árabe nunca foi exemplo de democracia. Não pelo menos nos moldes do que estamos acostumados no Ocidente e no Brasil desde a redemocratização em 1985. Não há liberdade de imprensa, nem liberdade partidária. No parlamento, o único partido consentido, a Irmandade Muçulmana, elegeu nas eleições parlamentares de 2005, 88 deputados de um total de 454 cadeiras (19,38%).

A parceria estratégica que o Egito mantém com os EUA tem diversos objetivos. O maior deles é o controle do Canal de Suez, por onde passam boa parte dos petroleiros e navios transoceânicos de luxo de todo o mundo. Boa parte da economia mundial depende dessa passagem que liga o Mar Vermelho ao Mediterrâneo. O Canal era explorado pela Inglaterra, mas foi nacionalizado por Nasser em 1956, na mais firme e heroica atitude tomada por um dirigente árabe em toda a história.

Além disso, a mais estratégica passagem entre o Egito e a Faixa de Gaza, a cidade de Rafah, esta sob total controle do governo Mubarak. Para asfixiar Gaza e os palestinos, Mubarak mantém com mão de ferro o total controle dessa fronteira, fazendo o jogo de Israel, que lhe pede repressão maior a cada dia. O exército americano esta inclusive construindo uma muralha de aço para separar a fronteira egípcia e palestina.

Em recente declaração do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Bidden, este confessou em público o que todos sabem: afirmou com todas as letras que Mubarak não pode ser chamado de ditador. Que seria ele então?

O exemplo tunisiano e algumas imolações ocorridas também no Cairo foi a gota d’água para as manifestações. A imprensa insiste em vincular isso com a questão islâmica, mas isso é um equívoco. O levante é popular e não islâmico. Isso esta claro. São cidadãos egípcios que saem às ruas para pedir um basta à ditadura Mubarak, que até outro dia era chamado de “presidente” por essa mídia internacional e a brasileira, hipócrita como sempre.

O que vimos na imprensa ser chamada de Revolução Egípcia, pode sim ter características de revolução, a depender de quem a dirija e dos rumos que ela possa tomar de ora em diante. Não há como negar que os Estados Unidos lutam com todas as suas forças e armas, para ter o controle de um processo de transição que não faça com que o aliado histórico se afaste de sua órbita de influência (mais abaixo comentarei sobre Israel ainda). O próprio Lênin dava as características de uma situação que pode ser revolucionária, quando ele dizia que “os de cima não mais conseguem governar como antes e os de baixo já não aceitam mais ser governados como antes”. É o caso do Egito.

Ainda assim, a chamada revolução egípcia ainda não da sinais de que tem seu caráter antiamericano, anti-EUA. É sim, de forma clara, uma revolução anti um regime apoiado abertamente pelos Estados Unidos, mas isso é diferente. Sigo de acordo com a opinião da imensa maioria dos analistas internacionais a que pude ler seus despachos, qual seja, de que qualquer regime que suceda Mubarak, é muito pequena a probabilidade de que seja serviçal e dócil com os Estados Unidos. Nesse sentido e por si só, isso já representa uma derrota para o império norte-americano e sinalizam problemas para Obama, mais dos que ele os têm, tanto no front interno e externo. É como se Washington tentasse a todo custo, sequestrar a revolução egípcia, realizando uma transição pacífica e de colaboração que preserve o futuro de Mubarak e seus aliados e os interesses norte-americano e israelenses. E que o modelo neoliberal seja preservado.

Aqui, registro algumas observações:

•    Não há uma animosidade contra os Estados Unidos; sintonizo o tempo todo ao vivo a TV Al Jazeera (veja o link http://english.aljazeera.net/watch_now/) e não vi uma bandeira norte-americana sendo queimada; tampouco vejo animosidade contra os estrangeiros em geral; os cartazes não me parecem ser antiamericanos;
•    Como diz Fisk, os egípcios deram gargalhadas quando viram Barak Obama na TV “conclamar” que Mubarak “abrace a democracia”, depois desse ter servido fielmente com sua ditadura aos interesses estadunidenses;
•    Soa profundamente hipócrita, segundo Borón, que tanto Obama como sua secretária Hilary Clinton, apelando para que um regime corrupto e repressivo como poucos no mundo inteiro, trilhe agora um caminho de reformas democráticas, econômicas e sociais;
•    O movimento popular não mirou em nenhum momento, como seus alvos estratégicos, como diz Chossud&oac

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Lejeune Mirhan
Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association e colunista da Revista Sociologia da Editora Escala.

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