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As negociações entre palestinos e israelenses foram retomadas no início de setembro.
Um dos temas mais explosivos é Jerusalém oriental, onde os palestinos pretendem fixar a capital de seu futuro Estado.
Para Israel, Jerusalém é sua capital una e indivisível. Jerusalém puramente judaica.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em um discurso para AIPAC, em 22 de março de 2010, declarou que Jerusalém oriental não é uma colônia, mas a parte oriental da capital do Estado judeu.
Segundo ele, a ligação histórica do povo judeu com a terra de Israel é inegável, como inegável a ligação desse povo com Jerusalém.
Declarou que o povo judeu construiu Jerusalém há três mil anos e está construindo a cidade hoje.
“Jerusalém é nossa capital e a política do meu governo é a mesma dos governos israelenses anteriores em relação a Jerusalém”.
O professor Juan Cole, professor de História da Universidade de Michigan nos Estados Unidos, publicou um estudo sobre Jerusalém, a história e as falsas afirmações de Netanyahu sobre ambas.
Segundo prof. Cole, Netanyahu misturou clichês românticos e nacionalistas, com falsas asserções históricas.
O mais importante é o que ele deixou fora da História: sua citação de uma estória falsa, fabricada e incorreta, em lugar de considerar as leis, os direitos e a decência humana, em relação aos outros e não apenas do seu grupo étnico.
Prof. Cole citou dez motivos contra a alegação de Netanyahu de que Jerusalém oriental faz parte de Israel:
1º - A lei internacional considera Jerusalém um território ocupado e as partes da Cisjordânia que Israel anexou unilateralmente para criar a grande Israel, após a ocupação de 1967, viola o direito internacional.
A quarta Convenção de Genebra de 1949 e as resoluções de Haia de 1907 proíbem as forças de ocupação de alterar o estilo de vida da população ocupada. Vedam também o assentamento de população do país ocupante nos territórios ocupados.
A expulsão dos palestinos das suas casas em Jerusalém oriental, a usurpação das propriedades palestinas lá e o assentamento de israelenses nas terras palestinas são todas violações grosseiras da lei internacional.
A alegação israelense de que Israel não ocupa a Palestina, porque os palestinos não tem Estado, é cruel e tautológica.
As alegações israelenses de que estão construindo em território vazio são risíveis.
O quintal da minha casa é vazio. Isso não dá, Sr Netanyahu, o direito de construir sua casa lá.
2º - Os governos israelenses, de fato, não foram unidos ou constantes em relação ao que fazer com Jerusalém oriental e Cisjordânia, ao contrário da afirmação de Netanyahu.
O plano Galili para a colonização da Cisjordânia foi adotado apenas em 1973.
O ex-primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin assumiu compromissos com os palestinos, como parte dos acordos de Oslo, aceitando a retirada dos territórios palestinos e criação de um Estado palestino, o que causou seu assassinato pela extrema direita israelense.
Elementos dessa direita apóiam o governo Netanyahu hoje.
Em 2000, o então primeiro-ministro, Ehud Barak, alegou que ele deu garantias verbais aos palestinos de que eles terão quase toda a Cisjordânia e aceitou arranjos para transformar Jerusalém em capital da Palestina.
Netanyahu tenta dar impressão de que a política de seu partido Likud, em relação a Jerusalém oriental, foi partilhada por todos os governos israelenses, e isso não é verdade.
3º - O nacionalismo romântico imagina o povo como entidade eterna, que tem conexões fixas com um território.
Essa é uma maneira fantasiosa e mitológica de pensar. Os povos se formam e mudam e às vezes, deixam de existir, apesar de que podem ter descendentes que abandonam a religião, a etnia ou a língua.
Os seres humanos se locomovem ao redor do mundo e não sempre são ligados a um território exclusivo.
Jerusalém não foi fundada por judeus, seguidores da religião judaica.
Foi construída entre três mil e 2.600 aC, por povo semita ocidental ou provavelmente pelos cananeus, os antecessores comuns dos palestinos, libaneses, sírios, jordanianos e judeus orientais. Mas quando foi fundada, os judeus não existiam.
4º - Jerusalém foi nomeada em honra a um deus jebuseu – Shalem. O nome da cidade não significa cidade da paz, mas cidade edificada para honrar o deus Shalem.
5º - O “povo judeu” não estava construindo Jerusalém há três mil anos, i.e., mil anos aC.
Em primeiro lugar, não é claro quando exatamente o judaísmo tomou formato definitivo como religião baseada na adoração de um único Deus.
Isso parece um acontecimento tardio, porque não há evidências arqueológicas disso. Apenas lugares de adoração de deuses cananeus foram encontrados nas escavações de Jerusalém nesse período.
As pirâmides foram construídas muito tempo antes e não foi usado trabalho escravo na sua construção.
As crônicas sobre a história do reino de Ramsés II encontradas nas paredes de Luxor não informam sobre grande revolta de escravos ou fuga para a península do Sinai.
As fontes egípcias nunca ouviram de Moisés ou das doze pragas.
Judeus e judaísmo se formaram de uma classe social dos cananeus durante vários séculos dentro da palestina.
6º - Jerusalém não só não estava sendo construída pelo não existente povo judeu em 1.000 aC, mas a cidade provavelmente não era habitada nesse período.
Parece que Jerusalém foi abandonada entre 1.000 e 900 aC, a data tradicional do reino unido de Davi e Salomão. Por isso, Jerusalém não é a cidade de Davi, porque não havia cidade nessa época.
Não foram encontrados sequer vestígios de palácios magníficos ou sinais de grandes Estados na arqueologia desse período.
Os registros assírios, que relatam os mínimos detalhes dos acontecimentos na região, como por exemplo, as ações dos reis árabes, não sabem sobre o grande reino de Davi e Salomão, na Palestina geográfica.
7º - Como a arqueologia não mostra a existência de reinos judeus no chamado período do primeiro templo, não fica claro quando exatamente os judeus controlaram Jerusalém, com exceção do reino dos hasmoneus.
Os assírios conquistaram Jerusalém em 722 aC; os babilônios, em 597 aC. Esses governaram a cidade até ser conquistada em 539 aC pelos persas aquemênidas. Os aquemênidas governaram Jerusalém até Alexandre, o Grande, da Macedônia, ocupar o oriente em 330 aC.
Os sucessores de Alexandre, os Ptolomeu, governaram a cidade até 198 aC, quando os selêucidas conquistaram a cidade.
Com a revolta dos macabeus em 168 aC, o reino judeu dos hasmoneus, de fato governou Jerusalém até 37 aC.
Herodes controlou Jerusalém desde 37 aC até a conquista romana da Palestina, no ano 6 dC.
Os romanos e depois o império bizantino controlaram Jerusalém até 614 dC, quando o império sassânida persa conquistou e governou até 629 dC. Naquele ano, os bizantinos conquistaram Jerusalém novamente.
Em 638 dC, os muçulmanos conquistaram Jerusalém e a governaram até 1099, quando a cidade foi ocupada pelos cruzados.
Os francos cruzados expulsaram e massacraram os judeus e muçulmanos e mesmo os árabes cristãos de Jerusalém.
Os muçulmanos, sob a liderança de Salah El Din (Saladino) libertaram Jerusalém em 1187 e permitiram o retorno dos judeus para a cidade.
Os muçulmanos, então, novamente governaram a cidade até o final da primeira Guerra Mundial, em um período total de 1192 anos.
Os seguidores do judaísmo não fundaram Jerusalém. A cidade provavelmente existia há mais de dois mil e setecentos anos antes do estabelecimento do judaísmo.
O controle de judeu provavelmente não durou mais que 170 anos, período do reino dos hasmoneus.
8º - Por isso, se a construção de Jerusalém e a conexão histórica com a cidade, dá soberania, como alega Netanyahu, aqui estão os grupos que tem maior direito sobre a cidade:
a) os muçulmanos, que governaram e construíram a cidade por 1192 anos;
b) os egípcios, que controlaram a cidade, como estado súdito, durante centenas de anos no segundo milênio antes de Cristo;
c) os italianos, que governaram a cidade durante 444 anos, até a queda do império romano em 450 dC;
d) os iranianos, que governaram a cidade durante 205 anos;
e) os gregos, que controlaram por mais de 160 anos;
9º - Claro que os judeus historicamente tem ligação com Jerusalém por causa do templo, independentemente da data de sua construção. Fica claro que essa ligação se estabeleceu quando os judeus não tinham controle efetivo e político sobre a cidade, que era governada e controlada por persas, gregos, romanos e outros. Por isso, não tem como Israel exigir um controle político sobre toda a cidade hoje.
10º - Os judeus de Jerusalém e do resto da Palestina não saíram da terra após a derrota de Bar Kochba contra os romanos em 136 dC. Eles continuaram morando na Palestina, governada pelos romanos e bizantinos.
Gradualmente, converteram-se para o cristianismo e depois de 638 dC, muitos deles se converteram ao islamismo.
Os palestinos de hoje são descendentes daqueles antigos judeus e tem todo direito de morar onde seus antepassados viveram durante séculos.
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Abdel Latif Hasan Abdel Latif
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