O pessimismo geral acompanhou o anúncio da retomada das negociações entre israelenses e palestinos, marcada para início de setembro próximo em Washington.
Os americanos estão preparando o teatro de sempre, com participação de chefes de Estado – Egito e Jordânia – além do primeiro ministro israelense, o presidente da autoridade nacional palestina e é claro, o anfitrião americano.
Apesar das declarações americanas e israelenses sobre a possibilidade real de se chegar a um acordo, a opinião geral dos analistas políticos da região é de pessimismo.
Mais de dezessete anos de negociações diretas e indiretas, secretas e públicas não modificaram a posição de Israel, que continua longe do consenso mundial em relação a uma solução pacífica do conflito.
A comunidade internacional chegou a uma conclusão unânime de que a única saída para o impasse atual é a chamada solução de dois Estados.
O conceito básico dessa solução resume-se no seguinte:
1º criação de um Estado Palestino independente, viável e contínuo, após a retirada das focas de ocupação de Israel, dos territórios palestinos: Cisjordânia, Gaza e Jerusalém oriental;
2º o direito de todos os Estados da região de viver dentro de fronteiras seguras e reconhecidas internacionalmente;
3º a solução justa da questão dos refugiados palestinos.
Israel não reconhece os territórios palestinos como ocupados, mas como territórios disputados, necessitando de negociações para discutir seu status final, o que não significa necessariamente retirada total das tropas israelenses desses territórios.
Israel considera Jerusalém, inclusive a parte árabe anexada depois da Guerra de 1967, como sua capital única, eterna e indivisível e os refugiados palestinos devem retornar para o futuro mini-Estado Palestino a ser criado.
No domingo passado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou que um acordo de paz com os palestinos é possível, mas deve se basear em três aspectos básicos:
1º a garantia de segurança de Israel;
2º o reconhecimento de Israel como Estado do povo judeu;
3º desmilitarização do futuro mini-Estado Palestino.
Analisaremos o significado dessas exigências e condições israelenses:
1ª a garantia da segurança de Israel – essa exigência é uma tentativa de inverter a lógica do conflito na região.
O conflito simplesmente existe porque Israel ocupa os territórios árabes-palestinos, submete o povo palestino a uma política de opressão desumana e brutal, desrespeita todo e qualquer direito dos palestinos, por isso a questão básica era e continua sendo a ocupação.
Sem reconhecer o fato de que Israel é uma força de ocupação e essa ocupação deve acabar, é inimaginável chegar a uma solução.
Israel tem um exército dos melhores do mundo, tem arsenal de armas nucleares e quando exige que a parte fraca, oprimida e perseguida, tem a obrigação de garantir a segurança dos opressores e ocupantes, isso representa a inversão da essência do conflito.
Foi Israel quem começou todas as guerras na região, fato já reconhecido pelos próprios historiadores israelenses.
Israel é o único país da região que desrespeita a lei internacional e viola, diariamente, os direitos mais básicos dos palestinos.
Israel, de fato, é o único país que ameaça a paz na região.
Os palestinos não ocupam terras israelenses e não tem exército que oprime os israelenses e não estão construindo assentamentos dentro do território daquele Estado.
A fórmula para conseguir segurança e paz é muito simples: aceitar as exigências da comunidade internacional, acabar com a ocupação e se retirar totalmente dos territórios ocupados em 1967.
Os oprimidos não garantem a segurança dos seus opressores.
Os excluídos, ocupados e massacrados, diariamente, não garantem a segurança do ocupante.
2º o reconhecimento de Israel como Estado judeu
Uma exigência israelense recente e que tem considerações demográficas, políticas e religiosas.
À primeira vista, pode parecer algo razoável, mas um exame mais profundo mostra uma realidade completamente diversa.
Fazendo uma comparação com o Brasil, por exemplo, e afirmar o seguinte: O Brasil é o Estado dos brasileiros. Correto. Todos os cidadãos desse Estado são brasileiros, algo evidente, mas no caso de Israel, essa afirmação levanta várias contradições.
Ao afirmar que Israel é um Estado judeu e todos os cidadãos de Israel são judeus, isso cria pelo menos três impasses.
1º nem todos os judeus do mundo são israelenses. Há mais judeus fora de Israel, do que dentro do Estado. É verdade que muitos deles têm algum tipo de ligação com Israel, mas não são considerados pela lei internacional, como apátridas, já que são cidadãos dos países onde vivem.
Conforme a fórmula do Estado judeu, todos os judeus do mundo são considerados cidadãos israelenses, sem serem consultados e às vezes, contra sua vontade.
Segundo a lei em vigor em Israel, qualquer judeu do mundo tem direito de emigrar para aquele país e no aeroporto, é concedida automaticamente a cidadania, enquanto aos palestinos nascidos naquela terra e expulsos de lá há poucas décadas, não tem o mesmo direito.
Ademais, não todos os cidadãos de Israel são judeus. Mais de 20% da população de Israel são árabes-palestinos. Eles sofrem discriminação institucional por parte do governo. São cidadãos de segunda e terceira categorias, sem direitos iguais, comparados aos cidadãos judeus. Suas terras são frequentemente confiscadas para a construção de cidades e assentamentos para uso exclusivo da parcela judaica da população, considerada a dona única do Estado.
Esses palestinos são considerados ameaça ‘a existência do Estado ou como os políticos israelenses o chamam – bomba demográfica.
Reconhecer Israel como Estado judeu significa que, automaticamente, os não judeus dentro desse Estado não são cidadãos e devem ser tratados como tal. E uma vez que são vistos como bomba demográfica ou ameaça de ordem pública, a melhor solução é expulsá-los para o mini-Estado palestino a ser criado.
O simples fato de reconhecer Israel como Estado Judeu é legitimar tudo o que foi feito contra os palestinos, desde a criação desse Estado até hoje. Isso significa negar que Israel foi construído nas ruínas da Palestina e justificar uma injustiça histórica cometida contra os palestinos.
A fórmula para não apenas uma paz duradoura, mas para a reconciliação histórica, nesse caso, é a seguinte: Israel é o Estado de todos os israelenses, independentemente de sua cor, religião ou raça.
Voltando para o exemplo do Brasil, o que os israelenses querem é uma declaração parecida com semelhante a essa: O Brasil é o Estado católico, o que implica necessariamente que todos os católicos do mundo são cidadãos brasileiros e só os católicos são cidadãos brasileiros.
Difícil imaginar que algum brasileiro vai levar isso a sério. Por que os palestinos devem?
3º Um mini-Estado palestino desmilitarizado
Manter a Palestina desmilitarizada enquanto Israel tem armas inclusive nucleares, ameaçando não apenas os palestinos, mas toda a região é uma tradição prática de uma mentalidade colonialista.
Os palestinos, em particular, e os árabes em geral, devem continuar subjugados e mantidos na posição inferior ‘aqueles que se consideram seus senhores.
Por que não desmilitarizar toda a região?
Pelo Oriente Médio desmilitarizado e sem armas nucleares. Esse é o passo verdadeiro para a paz verdadeira!
Israel está tentando manter seu controle de fato sobre toda a Palestina histórica, oferecendo uma autonomia limitada aos palestinos, dentro de um sistema que combina a ocupação com o apartheid.
Isso é exatamente o caminho para continuar o conflito, um caminho que leva ‘a direção contrária da paz justa.
Israel tentou realizar isso por meios militares. Falhou por completo. Está tentando o mesmo por meios negociais, mas não terá resultado melhor.
A ocupação tem sua lógica, mas a História tem lógica diversa.
Aqueles que não aprendem com o erro dos outros são obrigados a aprender com seus próprios erros.
Não se sabe quantas vidas mais serão perdidas e sofridas para Israel reconhecer o óbvio: não há paz com ocupação, não há segurança com injustiça e não há como manter sua liberdade, quando você tenta manter outro povo em cárcere.