Por Abdel Latif Hasan Abdel Latif
O Estado de Israel é colonialista e sua sociedade compõe-se de colonos europeus, que se instalaram na terra alheia e lá criaram uma entidade exclusivista, teocrática e em eterno conflito com os nativos palestinos e com os vizinhos árabes.
Quando os primeiros sionistas escolheram a Palestina entre várias outras alternativas levantadas para a colonização – Uganda, Amazônia brasileira, Argentina e Sinai – para a criação do seu Estado no final do século XIX, a Palestina era a pátria natural e milenar de um povo que lá vivia e se desenvolvia há milhares de anos – o povo palestino.
Os palestinos de hoje são descendentes dos antigos cananeus, hititas, jabusitas, hebreus, filisteus e outros, que nunca abandonaram sua terra e com o tempo, formaram uma entidade geográfica e demográfica, conhecida como Palestina.
Com o início da colonização sionista, os palestinos, como qualquer outro povo do mundo, não mostraram a mínima intenção de abandonar sua terra voluntariamente e dar lugar aos colonos europeus recém-chegados ‘aquela terra.
O movimento sionista, como os outros movimentos colonialistas, em frente a essa situação - conflito com os nativos – tinha duas alternativas. A primeira era o modelo sul africano – a criação de um Estado de apartheid, onde a minoria de colonos estrangeiros controla e explora a maioria nativa.
A segunda era a transferência ou limpeza étnica: expulsar os nativos das suas terras e criar um Estado puramente Judeu.
Na literatura sionista, há evidências abundantes de que o movimento escolheu, desde o início, o segundo caminho: a limpeza étnica.
Theodoro Herzl, o fundador do sionismo moderno, deixou claro em seu opúsculo “O Estado Judeu”, a intenção do seu movimento: expulsar os palestinos de sua pátria e impedi-los de retornar, sob qualquer circunstância.
Chaim Weizmann, primeiro presidente de Israel, trinta anos antes da criação do seu Estado, declarou às potências imperialistas reunidas na Conferência de Versalhes, em 1919, que a intenção dos sionistas era transformar a Palestina em um Estado judeu, como a França dos franceses e Inglaterra dos ingleses.
Ben Gurion, profeta armado de Israel, seu fundador e primeiríssimo ministro, declarou que os sionistas não tinham interesse em controlar os nativos árabes da Palestina e não estavam procurando um mercado para sua economia, como as outras forças colonialistas. Na Palestina, os sionistas queriam apenas criar um Estado exclusivamente judeu e segundo ele, isso era possível apenas com a transferência compulsória da população palestina.
Antes da criação do Estado judeu, os sionistas começaram seu plano de limpeza étnica.
Durante a guerra de 1948, o processo se intensificou e com o término da guerra, mais de oitocentos mil palestinos foram expulsos de suas casas e mais de quinhentas aldeias, cidades e localidades palestinas foram destruídas, para dar lugar aos recém chegados colonos judeus.
Foi a primeira etapa do plano sionista da conquista de toda a Palestina histórica.
Uma nova etapa começou com a Guerra de junho de 1967, quando Israel ocupou toda a Palestina, as colinas de Golan e a península do Sinai, transformando-se em um mini-império na região do Oriente Médio.
A nova ocupação das terras árabes colocou o sionismo face a face com o dilema de sempre: conquistaram a terra, mas com a terra e na terra tomada, há milhões de árabes. O que fazer com eles?
Uma nova limpeza étnica na escala de 1948 era impossível, devido ‘a situação geopolítica do mundo. Expulsar centenas de milhares de palestinos pela segunda vez das suas terras era mais do que tolerável, mesmo por aqueles que apóiam Israel cegamente. Por isso, os governos de Israel escolheram construir na Palestina ocupada em 1967, um sistema de apartheid, de uma forma gradual e silenciosa.
Foram os trabalhistas, os “bons e humanistas” sionistas que começaram o processo da colonização dos territórios ocupados e iniciaram a construção de assentamentos nas regiões consideradas estratégicas para o projeto sionista: o vale do Jordão, Jerusalém e ao redor das grandes cidades palestinas.
Com a vitória do Likud nas eleições de 1977, foi elaborado um novo plano da colonização dos territórios palestinos, com a participação da Organização Sionista Mundial e Agência Judaica.
A intenção do plano era implantar fatos que impediriam a criação de um Estado Palestino viável ou a devolução dos territórios ocupados em caso de acordos de paz com as árabes.
Previa instalar nos territórios palestinos cerca de dois milhões de colonos judeus, em clara violação do Direito Internacional, que proíbe a força de ocupação de construir, transferir parte de sua população ou mudar a demografia de um território ocupado.
A construção dos assentamentos se intensificou com os acordos de Oslo de 1993. Israel triplicou o número de seus colonos e duplicou a quantia de suas colônias, construiu um sistema de estradas que ligam esses assentamentos com território israelense, confiscando terras palestinas, tanto para construção dos assentamentos, como para a construção das estradas, que são de uso exclusivo dos colonos judeus.
A maioria dos colonos judeus nos territórios ocupados é formada por religiosos fanáticos e nacionalistas, de extrema direita sionista. Mais de noventa por cento deles votaram nas últimas eleições, nos partidos religiosos ou partidos da extrema direita. Eles acreditam que a sua pátria é Eretz Israel e não é Estado de Israel, e por isso não aceitarão outro Estado entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo. Para eles, os palestinos são estrangeiros, que devem ser expulsos ou aniquilados.
Um dos líderes dos colonos, o ex-general Efi Eitan, considera a idéia da transferência dos palestinos, como politicamente atraente, embora irrealista na ausência de uma guerra. Em caso de guerra, segundo ele, sobrariam poucos árabes.
Outro líder, o rabino Yitzhak Shapira, justifica a matança de crianças palestinas, goyn, pelo futuro perigo que se cria, em caso seja permitido que essas crianças cheguem ‘a idade adulta.
No livro publicado por Shapira, em um assentamento perto de Nablus, ele esclarece que os judeus estão autorizados a matar os goyn em qualquer lugar ou situação , mesmo se esses goyn não estejam envolvidos em atividades militares e mesmo as crianças, porque segundo ele, os infantes de hoje são a ameaça do futuro.
Para esses colonos, a grande Israel se estende do rio Jordão ao mar, a herança indivisível do povo judeu e o Estado de Deus. Para eles, os judeus são a alma do mundo e o povo judeu tem por missão revelar a imagem de Deus na Terra. Devolver qualquer parte dos territórios ocupados para os palestinos ou permitir a criação mesmo de um mini-Estado Palestino, representa ato de traição e abandono do plano divino para o povo judeu.
Hoje, nos territórios ocupados, há mais de quatrocentos assentamentos judaicos, construídos em terras confiscadas dos palestinos. Trata-se de violação do Direito Internacional, que considera esses territórios como base geográfica para um futuro Estado Palestino.
Nesses assentamentos, já vivem mais de meio milhão de colonos judeus. São fanáticos, bem armados, ideologicamente motivados, que diariamente atacam os palestinos, destruindo suas casas e plantações.
O exército da ocupação israelense nada faz para impedir as agressões desses colonos. Ao revés, a presença do exército assegura a impunidade das ações dos colonos e subjuga os palestinos, mantendo-os confinados nos guetos e enclaves criados pelo Estado de Israel.
Os colonos são os verdadeiros representantes da ideologia sionista. Não são minoria, como a mídia e o governo de Israel tentam mostrar. Entre eles, há membros do Knesset, ministros de Estado, generais do exército. A influência deles cresce cada vez mais no cenário político israelense, independente do partido no poder.
A lógica dos colonos é a mesma do sionismo desde o início: colonização da terra e expulsão dos nativos.
A ex-ministra de educação de Israel, Shulamit Aloni, classificou os colonos como “malvados”, ou um “povo malvado”. Escreveu no jornal Yediot Aharonot, em 30/11/2009, “Sim, somos malvados. O que estamos fazendo na Cisjordânia está além da maldade. É pior do que os goyn fizeram conosco”.
Os fatos criados por Israel nos territórios ocupados eliminam qualquer possibilidade de criação de um Estado Palestino independente e viável. Israel está oferecendo para os palestinos, um território fragmentado, sem continuidade e cercado por fanáticos religiosos armados e sob proteção do exército de ocupação. Israel está construindo, de fato, um sistema de apartheid nos territórios palestinos.
Nosso mundo tolera cada vez menos as violações dos direitos humanos e condena, mais e mais, aqueles que, em nome de um deus tribal, vingativo e sectário, tentam manter outro povo em cativeiro e humilhado em sua própria pátria.
O destino do apartheid na Palestina não será diferente do enterrado apartheid na África do Sul.