Em uma entrevista ao Web-site TABLET, dirigido pelo historiador israelense Benny Morris, o presidente de Israel, Peres, acusou os britânicos de serem anti-Israel e pró-árabes.
Peres alegou que na Grã-Bretanha há mais anti-semitismo do que o governo reconhece. Segundo ele, há expressão popular: “o anti-semita é aquele que odeia os judeus mais do que necessário”.
Ele declarou que sempre houve algo profundamente anti-israelense e pró-árabe na política do governo britânico.
Como exemplo, ele deu a retirada israelense da faixa de Gaza: “Saímos de Gaza e apesar disso, fomos atacados por foguetes dos terroristas. Durante anos, fomos atacados pelos palestinos, sobre isso, nenhuma palavra dos ingleses”, declarou Peres.
Na sua entrevista, Peres não mencionou o que Israel estava fazendo em Gaza durante os 40 longos anos da ocupação. Nenhuma palavra sobre o bloqueio imposto por Israel contra Gaza, transformando aquele território na maior prisão do mundo. Silenciou sobre os crimes de guerra contra a população civil nos territórios palestinos ocupados. Calou-se sobre as invasões do seu Estado contra Gaza e o Líbano. Nada disse sobre as ameaças constantes sobre os países vizinhos. Nenhuma palavra sobre as políticas sionistas em relação à Palestina e aos palestinos desde a concepção do seu Estado até hoje. Silêncio total sobre o genocídio, a limpeza étnica, a ocupação, o apartheid, crimes contra a humanidade cometidos pelo seu governo contra o povo árabe.
Segundo o “moderado” Peres, apenas os ataques dos palestinos contra Israel merecem a condenação e todos aqueles que não se submetem ‘as políticas assassinas de um Estado paria são anti-semitas.
Miopia política? Mais que isso. Racismo? Muito mais! Uma cegueira política e histórica, fruto de uma ideologia doentia, que nada aprendeu com a história e que certamente não terá lugar no futuro daquela região.
Peres sabe melhor que todos que o patrocínio do imperialismo britânico era vital para o projeto sionista no Oriente Médio. Sem o empenho e ajuda financeira, política e militar dos britânicos, não era possível a criação de um Estado sionista na Palestina.
Bem antes de Theodore Herzl nascer, os políticos ingleses defendiam, por motivos imperialistas, políticos e econômicos, a criação de um Estado judeu alienígena no coração do mundo árabe, precisamente na Palestina.
Em 1839, foi aberto o primeiro consulado europeu em Jerusalém. O então cônsul britânico declarou que o maior objetivo da presença política do governo de sua Majestade naquela região era proteger os interesses dos judeus na Terra Santa.
Vale lembrar que naquela época, a população judaica na palestina era de menos de 5 mil entre centenas de milhares de árabes palestinos cristãos e muçulmanos, e todos conviviam como iguais, em harmonia.
Em 1917, a declaração de Balour desenhou a política imperialista do Governo Britânico em relação ‘a Palestina: realizar todo esforço para criar um lar nacional judaico naquela terra.
Após a ocupação da Palestina pelas forças britânicas em 1922, a política declarada do governo da ocupação era criar as condições políticas, econômicas, sociais e militares que garantiriam a transformação da Palestina árabe em um Estado exclusivamente judeu.
A agência judaica, braço político e financeiro do movimento sionista mundial, foi reconhecida pelas autoridades da ocupação, como parceiro no processo da transformação da Palestina, concedendo para a agência judaica, autonomia total, poderes governamentais em relação a todos os assuntos judaicos.
O primeiro representante do governo britânico na Palestina era o judeu sionista Herbert Samuel, que tudo fez para realizar as pretensões sionistas e de esmagar a resistência dos palestinos.
As organizações terroristas sionistas – Haganah, Stern e Irgun, recebiam ajuda, treinamento e armamento das forças inglesas. Eram o núcleo do futuro exército israelense.
Enquanto isso, os palestinos eram enforcados, em caso de suspeita de porte de arma.
A grande revolta palestina em 1936 foi esmagada cruelmente pelas forças das armas britânicas e sionistas em conjunto.
Depois de esmagar a revolta, a liderança do povo palestino se encontrava morta, presa ou no exílio. Milhares de palestinos foram mortos durante a revolta e a economia palestina foi arrasada.
Assim, quando chegou o movimento decisivo de enfrentar o plano sionista em relação ‘a sua pátria, os palestinos encontravam-se sem liderança, com a economia arrasada, sem instituições nacionais capazes de liderar sua luta pela liberdade e independência.
A NAKBA – catástrofe – de 1948 era inevitável.
Tudo isso era resultado das políticas dos anti-semitas ingleses, segundo Peres.
Em 1956, Israel, junto com Grã-Bretanha e França aliaram-se para aniquilar o recém-nascido movimento nacionalista árabe e seu líder Jamal Abdel Nasser. Era uma guerra imperialista, por excelência, com objetivo de consolidar o papel colonial do recém-criado Israel e destruir qualquer esperança dos árabes de se libertarem do jugo imperialista.
Sem a participação ativa do governo britânico durante muitos anos, era impossível a criação do Estado de Israel.
Durante muitos outros anos, o apoio incondicional concedido pela Grã-Bretanha e outras potências ocidentais, hoje em especial os Estados Unidos, tem garantido não só apenas a sobrevivência da política segregacionista de Israel, mas também a impunidade, apesar de todos os crimes cometidos por esse Estado contra os árabes e das condenações da comunidade internacional.
Quando o presidente de Israel acusa aqueles que criaram seu Estado e ajudam até hoje a mantê-lo de anti-semitismo, algo patológico e profundamente anômalo acontece com ele e com aqueles que ele representa.
Os anti-semitas são os maiores aliados do sionismo, desde os nazistas da Alemanha, até os atuais grupos da extrema direita na Europa.
São dilemas com os quais uma ideologia patológica tem que conviver: a guerra permanente é a garantia de sobrevivência ; a paz justa, duradoura é o início do fim de uma aventura colonial; para confirmar sua identidade esquizofrênica, necessita de anti-semitismo real ou imaginário e para confirmar seu direito imaginário, necessita negar os direitos básicos e naturais dos que estão ao seu redor.
Resta saber por quanto tempo uma ideologia como essa e sua encarnação política conseguem sobreviver.
Abdel Latif Hasan Abdel Latif, palestino