Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.
A frase acima é denominada “Basmalah”. O que a Basmalah representa no programa educacional islâmico? Será que pretende que seja uma expressão alcorânica (relativa ao Alcorão) para que os fiéis a repitam em suas recitações e quando mencionam o nome de Deus? É somente isso? Ou será que há algo mais profundo? Talvez necessitemos do próprio Alcorão para explorar alguns versículos que se reportem a Deus ao longo do tempo e da história.
Vejamos: “E menciona o nome do teu Senhor, de manhã e à tarde” (Al-Insán, 25), para que a pessoa inicie e termine suas atividades em nome de Deus; sendo isto vivificação de profundo sentimento no período em que o ser humano se dirige a Deus. É uma abertura do ser humano para a responsabilidade em sua vida a partir de si mesmo.
É, também, para despertar o sentimento espiritual, vivenciado pelo homem quanto à presença de Deus nele e não negligenciá-Lo. “E recorda-te do teu Senhor intimamente, com humildade e temor, sem alterar a voz, ao amanhecer e ao entardecer, e não sejas um dos tantos negligentes” (Al-A‘ráf, 205). “Porém, recorda-te do teu Senhor e consagra-te integralmente a Ele”. (al-Muzamil, 8).
Assim Deus quis que nos lembremos d’Ele ao suplicarmos o Seu nome na prática da caridade e da oração: “Glorifica o nome de teu Senhor, O Altíssimo” (Al-A‘la,1); e (Bem-aventurado aquele que se purificar” (Al-A‘la, 14); “E mencionar o nome do seu Senhor e orar!” (idem, 15). E, ainda, Deus quis que O lembremos ao iniciarmos a recitação (do Alcorão) para que esta seja em Seu nome . “Lê, em nome de teu Senhor, que criou” (Al- ‘Alaq, 1).
Foi determinado, também, que a carne do animal abatido para o consumo não se torna lícita a não ser que seja mencionado sobre o animal o nome de Deus na hora de seu abate. Vejamos: “Não comais aquilo (concernente a carnes) sobre o qual não tenha sido invocado o nome de Allah, porque isso é uma profanação.” (Al-An‘ám, 121). Como se vê, os versículos que mencionam Deus são diversificados tanto quanto à menção de Deus, como aos que mencionam Deus e quanto ao grau de espiritualidade. Este grau é proporcional ao grau de fé do muçulmano e o respectivo grau que este consegue com Deus, Louvado e Altíssimo.
Uma exegese atribuída ao Imam al-Hassan al-‘Askari (A.S.) afirma: “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”, ou seja, auxilio-me em Deus em todas minhas questões, Que é o Único merecedor de adoração, Que auxilia quando é solicitado, que atende a súplica quando é feita. Um certo homem perguntou ao Imam Al-Sádiq (A.S.): Ó filho do Mensageiro de Deus! Diga-me o que Deus é, pois, muitos explicaram e me deixaram em dúvida. Disse o Imam (A.S): “Já estiveste numa embarcação sozinho?” O homem respondeu: “sim”. Disse-lhe: “Essa embarcação quebrou e não havia outra para socorrer-te, e nadar não salvaria?” Respondeu: “sim”. Perguntou-lhe novamente: “Nesta situação, teu coração se voltou para algo que tem o poder de te salvar desta dificuldade?” O homem respondeu: “sim”. Disse, então, o Imam al-Sádiq (A.S.): “Este é Deus, Que tem o poder de salvar onde não há outro salvador, e de assistir onde não há outra assistência”.
A conclusão é que esta expressão sagrada, a Basmallah, é um símbolo específico dos mulçumanos, e com a qual iniciam suas palavras e suas atividades.
O significado deste versículo é que você inicia suas atividades apoiando-se em Deus, cuja misericórdia abrange todas as coisas, sabendo, você mesmo, que tudo que faz, o faz em seu nome e nome de nenhum outro além d’Ele.
Assim sendo, o primeiro versículo revelado por Deus a Seu nobre Profeta Mohammad (S.A.A.A.S.), era uma ordem para o Mensageiro, isto é, que inicie uma grande tarefa em nome de Deus: “Lê em nome de Teu Senhor” (Al-‘Alaq, 1).
Quando Noé (A.S.) entrou na embarcação naquele assombroso dilúvio, enfrentando ondas revoltas e todo tipo de perigo para concretizar seu objetivo, pediu a seus seguidores que repetissem a Basmallah. Nesta oportunidade, Deus disse: “Embarcai nela; que seu rumo e sua ancoragem sejam em nome de Deus”. (Húd, 41). Aquela viagem, repleta de perigos, terminou em paz e com bendição, como lembra o Alcorão Sagrado: “Ó Noé, desembarca, com a Nossa saudação e a Nossa bênção sobre ti e sobre os seres que (advirão dos que) estão contigo” ( Húd, 48).
Ao escrever uma carta à rainha de Sabá, Salomão iniciou com a Basmallah: “É de Salomão (e diz assim): Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.” (An-Naml, 30).
A partir deste princípio iniciam-se todas as suwar do Alcorão, isto é, com a Basmallah, a fim de concretizar seu objetivo fundamental; guiar a humanidade para a felicidade, com êxito, desde o começo até o fim de sua caminhada.
Apenas a sura At-Tauba não começa com a Basmallah porque inicia com declaração de guerra aos incrédulos de Meca e renegadores da fé. A declaração de guerra não é compatível com a descrição de Deus, como o Clemente, o Misericordioso.
Quando dizemos “em nome de Deus”, isto significa que iniciamos em nome de Deus; o nosso iniciar em nome de Deus é um informe acrescido. O nome de Deus deriva de “Alteza, Elevação”, significando grandeza, excelência, e a partir desses nomes foi dado também o nome às plantas que crescem e se elevam. E desse mesmo nome derivou o nome do céu, em função de sua elevação e altura. Foi dito que esse nome também deriva de “sublime” que é um signo. E realmente é um signo para quem lhe foi atribuído.
O nome é sujeito na linguagem, e este expressa e indica uma certa noção independente porque, neste caso, é derivado de “sublime, elevado” que, por sua vez, é um signo. Isto representa uma transferência lingüística. Foi transferido a partir do signo de alguma coisa para um signo particular, para uma palavra independente que se quer indicar.
Depois da palavra que indica um nome, passemos à palavra Deus (Allah, em árabe). Esta é a palavra mais abrangente para indicar “O Senhor do Universo”.
Cada nome atribuído a Deus no Alcorão Sagrado e em outras fontes da cultura islâmica, indica um aspecto específico dos atributos de Deus. O único nome que abrange todos os atributos e palavras divinas e reúne todos Seus atributos de excelência e beleza é Allah (Deus).
Por isso os outros nomes foram considerados atributos da palavra Deus, como, por exemplo: O Indulgente, o Misericordioso, o Oniouvinte, o Onisciente, o Onividente, o Sustentador, o Criador, o Onifeitor, o Formador (que dá as formas).
A palavra Deus (Allah), e somente ela, reúne o sentido de todas as outras. Em função disso, essa única palavra foi utilizada num versículo do Alcorão para expressar vários atributos, ou seja: “Ele é Deus; não há mais divindade além d’Ele, o Soberano, o Augusto, o Salvador, o Pacífico, o Zeloso, o Poderoso, o Compulsor, o Supremo! Glorificado seja Deus por tudo quanto (Lhe) associam!”
(Al-Hachr, 23).
Uma das provas da abrangência deste nome é que a demonstração de fé e a manifestação da Unicidade de Deus só se realizam mediante a pronúncia da frase “não há outra divindade além de Deus”. Outras frases como, não há divindade a não ser o Onipotente, ou não há divindade além do Criador, ou não há divindade além do Sustentador, não preenchem, para este caso, o propósito da demonstração de fé e da Unicidade de Deus.
É por este motivo que as outras religiões afirmam que a adoração dos muçulmanos é “em nome de Deus”. Na realidade, esta denominação abrangente é específica dos muçulmanos.
Há quem diga que a expressão “não há outra divindade além de Deus” é expressão da Unicidade de modo geral, e a expressão “não há outra divindade além d’Ele”, é expressão de Unicidade específica de “não há Ele senão Ele”, é, ainda, uma expressão de maior especificidade. É isto que o Alcorão determinou: Ele, o Altíssimo, afirma: “E não invoques, à semelhança de Allah, outra divindade, porque não há mais divindade além d’Ele! Tudo perecerá, exceto o Seu Rosto” e, em seguida disse: “Tudo perecerá,”. (Al-Qasas, 88). E, continuando este mesmo versículo, tem-se “exceto o Seu Rosto.”, quer dizer apenas Ele (não perecerá). Foi mencionada a expressão “não há outra divindade além d’Ele” e a expressão “não há divindade senão Ele”. Isto mostra que o foco da unicidade é esta palavra.
Em sua origem, a palavra “o Clemente” é um atributo derivado de misericórdia, cujo significado relativamente a Ele é a beneficência e relativamente a outro, significa a sensibilidade do coração. A utilização da palavra “Clemente” passou a ser utilizada para a Essência Sagrada até que se tornou um dos sublimes atributos de Deus. Disse o Altíssimo: “Dize-lhes: Quer invoqueis a Deus, quer invoqueis o Clemente, não importa o nome que o invoqueis, sabei que d’Ele são os mais sublimes atributos!” (Al-Isrá’, 110).
Assim sendo, você pode considerar a palavra “o Clemente” como atributo de Deus quanto à origem, ou como substituição quanto à transposição
Tem-se, ainda, que “o Misericordioso” é um atributo derivado da misericórdia pelo crente em particular, e a clemência é um atributo derivado da ampla misericórdia tanto para com o crente como para com o incrédulo.
De acordo com algumas fontes, esse sentido era aceito pelo Imam Al-Sádeq (A.S.) ao dizer: “O Clemente é um atributo no sentido geral, e o Misericordioso é um atributo no sentido particular”. Porém, não há fundamentos nesta afirmação, pois contraria o Livro Sagrado (o Alcorão). Neste, utiliza-se a palavra o Misericordioso sem, porém, dirigir-se especificamente aos crentes, ou ao Juízo Final. No livro Sagrado há: “…porque é, para com os humanos, Compassivo, Misericordioso”. (Al-Haj, 65).
E o Altíssimo disse: “…e castiga os hipócritas como Lhe apraz; ou então os absolve, porque Deus é Indulgente, Misericordioso”. (Al-Ahzáb, 24).
Há outros versículos, súplicas e relatos como, por exemplo: O Clemente nesta vida e na outra; Misericordioso das duas vidas. Há um outro aspecto citado por antigas fontes islâmicas e, talvez, seja o mais próximo da noção (desejada): este afirma que os dois atributos se distinguem ao máximo, vejamos!
O Clemente é um atributo da essência e é o princípio da misericórdia e benevolência. “O Misericordioso” é um atributo de ação que indica a chegada da misericórdia e benevolência a quem lhe foi concedida a graça. O que corrobora isto, é que “o Clemente” é mencionada no Alcorão somente quando é acompanhada de atributos; como é o caso dos nomes da essência. Vejamos: “Quer invoqueis a Deus, quer invoqueis o Clemente”. (Al-Isrá’,110); “...aqueles que negam o Clemente” (Az-Zukhruf, 33); “…por terem atribuído um filho ao Clemente”. (Mariam, 91); “…temo que te atinja um castigo do Clemente”. (Mariam, 45) ; “O Clemente; ensinou o Alcorão”.(Ar-Rahmán, 1-2) ; “Do Clemente, Que assumiu o Trono”. (Tá-há, 5). Há também outros versículos a respeito disse
Quanto à expressão “o Misericordioso”, seu uso ficou acentuado como atributo concreto, mencionada e ligada a quem foi concedida a graça, como por exemplo: “... porque é Compassivo e Misericordioso para com a humanidade”. (Al-Baqara, 143); “...Ele é Misericordioso para com os crentes”. ( AlAhzáb, 43); “... Ele é o Indulgente, o Misericordioso”. (Yunús, 107).
Por outro lado, a clemência foi citada inúmeras vezes sob o seguinte aspecto: “...Minha misericórdia abrange tudo”. (Al-A‘ráf, 156); “...então, vosso Senhor vos agraciará com a Sua misericórdia”. (Al-Kahf,16).
Não há no Alcorão alguma abordagem sobre a “clemência” de Deus. Temos a possibilidade de nos expressar sobre este aspecto no sentido de que a palavra “O Clemente” é um atributo de Sua essência, enquanto “o Misericordioso” representa um atributo do movimento, dinâmica da misericórdia sobre Suas criaturas. Talvez isso ocorra ao intelecto em função de seu uso, e Deus é O Onisciente.