A palavra “Hajj” significa a intenção de visitar. O Alcorão Sagrado mudou o seu significado linguístico geral para um significado específico, denominando um ritual islâmico em particular, um dos pilares da prática do islamismo.
A Peregrinação (Hajj) no Islã constitui-se de um conjunto de atividades que o muçulmano cumpre entre o 8º e 12º dia do 12º mês do calendário lunar islâmico, o mês de “Zul Hijja”, na cidade sagrada de Meca, situada, atualmente, no Reino da Arábia Saudita, da forma que o Mensageiro de Deus (Maomé, Muhammad S.A.A.S.) cumpriu.
Todo muçulmano em condições financeiras e físicas deve praticar o Hajj ao menos uma vez na vida
Foi denominado de Hajj porque o muçulmano, que cumpre os rituais, se dirige para a Caaba (templo em formato cúbico, coberto por um pano da cor preta, erguido no centro da Grande Mesquita de Meca) e para outros locais sagrados, como Arafat, Mina e Muzdalifa, para cumprir os seus rituais.
Rituais do Hajj
- Ihram: O início da consagração com o uso do traje da peregrinação.
- Tawaf: Circular em torno da Caaba.
- Sa’i: Ritual de se percorrer a distância entre os dois montes, Safa e Marwa.
- Wucuf: Que significa deter-se.
- Rami: Arremesso de pedras contra o simbulo do diabo.
- Mabit: Pernoite em Mina e Muzdalifa.
Ihram:
Antes de iniciar a jornada os fieis devem ingressar ao estado de autocontrole chamado de ihram, durante o qual o peregrino fica proibido de causar dano a criaturas vivas, mesmo insetos e plantas, ou elevar a voz em zanga. O estado de Ihram é determinado com o uso de duas peças não costuradas de tecido branco. O traje significa a igualdade de todos perante Deus. Não há especificação de trajes para as mulheres peregrinas. Desde o início do Ihram até o final da peregrinação o muçulmano não mais se barbeia, ou corta o cabelo, ou tem relações sexuais ou usa perfumes.
Tawaf:
Significa circungirar, no sentido anti-horário, sete vezes a Caaba que foi construída inicialmente pelo Profeta Abraão e seu filho Ismael. A Caaba é considerada o primeiro santuário na terra dedicado à adoração de Deus Único. É um símbolo da unidade dos muçulmanos porque todas as orações, onde quer que sejam cumpridas, são orientadas na direção da Caaba. Na Caaba também está presente a sagrada pedra negra, considerada uma prova material vinda dos céus.
Sa’i:
Consiste em percorrer sete vezes a distância entre dois pequenos montes, Safa e Marwa, perto da Caaba, em ritmo acelerado, para lembrar o desespero de Agar (mulher de Abraão) na procura por água para dar ao seu filho Ismael. Os fieis também bebem a água do poço de Zamzam, criada por Deus nas areias do deserto para salvar Agar e Ismael. A água de Zamzam, supostamente, tem poderes miraculosos. A chegada na fonte também marca o fim da jornada individual e o início da jornada coletiva. Depois do pôr-do-sol os peregrinos dirigem-se para Mina, um local perto de Meca, onde acampam, passam a noite e devem realizar as suas orações. Termina aqui o primeiro dia do Hajj.
Wucuf:
Ocorre no 9º dia do mês Zul Hijja, é o ponto máximo da peregrinação. Os peregrinos deixam Mina em direção ao Monte de Arafat, um elevado cercado por um vale vazio ha 25km de Meca. Nesse dia os peregrinos se reúnem em assembléia no monte para meditar e suplicar perdão a Deus, rezando do nascer ao por do sol. Se rendendo inteiramente à onipotência de Deus.
Após o pôr-do-sol os peregrinos dispersam, abandonando Arafat em direção a Muzdalifah onde fazem a oração da noite e lá deverão passar a noite em tendas. Durante a noite os fieis recolhem pequenas pedras que serão usadas num ritual do dia seguinte.
Rami:
É o arremesso de sete pedras, coletadas em Mina, feito contra três pilares (pedras que eram adoradas como divindades nos tempos pré-islâmicos) que representam a tentação de Satanás a Abraão para abandonar Deus por ter ordenado que sacrifique seu filho. O arremesso das pedrinhas indica a rejeição dos atos maléficos pelo peregrino.
Logo após começam os sacrifícios dos dias do Tashriq, em memória ao sacrifício de uma ovelha por Abraão, quando os fieis sacrificam ovelhas e doam a carne para os pobres. Muçulmanos em todo o mundo participam desse ritual.
Os ritos terminam com o início as festividades de três dias que celebram o fim do Hajj, o Eid al-Adha ("Festa do Sacrifício").
Por último, o peregrino pode efetuar um voluntário tawaf e um sa´ee antes de se despedir de Meca. Todo homem ou mulher que efetuou o Hajj é chamado de hajji ou hajja respectivamente, alcançado status de respeito na comunidade e na família.

O Hajj é uma viagem da alma e do corpo. É o abandono da pessoa para se dedicar a Deus e a Sua causa. É o abandono da família, dos bens e dos prazeres mundanos. É o suportar do cansaço, das dificuldades e do sono, por amor a Deus, saudade d’Ele e em atendimento ao Seu chamado:
“E proclama a peregrinação às pessoas; elas virão a ti a pé, e montando toda espécie de camelos, de todo o longínquo lugar” (Alcorão Sagrado, 22:27).
O Hajj é um ritual do qual participam vários elementos. Participam o corpo, o dinheiro, a alma e os sentimentos. Por isso tem um caráter material e, principalmente, espiritual. A pessoa pratica os seus rituais por intermédio do dispêndio financeiro em nome de Deus, do esforço físico, suportando as dificuldades e a fadiga, para se aproximar de Deus demonstrando total servidão a Ele e confirmando a libertação de qualquer força além d’Ele.
O objetivo do Hajj é o mesmo objetivo de todos os rituais no Islã. A sinceridade para com Deus abandonar nessa existência tudo que não seja Ele. Tomar o Adorado como objetivo das atividades e orientações da pessoa, para que a consciência do praticante fique tomada pela Grande Verdade e retorne pura, desprovida de todo mal e pecado. Por isso o Hajj foi instituído. O Alcorão o considera como um direito de Deus sobre os servos:
“Encerra sinais evidentes: lá está a Estância de Abraão, e quem quer que nela entre estará em segurança. A peregrinação à Casa é um dever para com Deus, por parte de todos os seres humanos que estejam em condições de empreendê-la; entretanto, quem se negar a isso saiba que Allah pode prescindir de todas as criaturas” (Alcorão Sagrado, 3-97).
O Hajj é um dos pilares da religião e uma das fortificações da fé. O Mensageiro de Deus (S.) disse: “A oração foi instituída e o Hajj e o tawaf foram ordenados para que se institua a recordação de Deus.”
O Imam Jaafar Assádiq (A.S.) disse: “A religião permanecerá enquanto perdurar a Caaba.”
OS VALORES E OS SIGNIFICADOS DAS ATIVIDADES DO HAJJ
O Hajj é constituído por um conjunto de atividades, símbolos , atos e palavras. Todos eles são organizados num círculo de tempo e locais específicos para incorporarem, em seu conjunto, um significado ritualista e um ato educacional que ajudam na formação da personalidade do muçulmano, reorganizando e corrigindo a sua marcha na vida, dedicando-a e seu destino a Deus.
O ritual do Hajj inspira a alma com vários significados que a fazem sentir a magnificência do local, a excelência da submissão e da servidão a Deus, plantando nela a excelência de conduta, guiando-a à retidão de comportamento e a uma convivência benevolente com os demais seres humanos. Em cada ato, proclamação e evocação nos rituais do Hajj, encontra-se um símbolo que inspira a alma com algum significado, um cumprimento que interpreta um segredo, um objetivo que a alma revela em seu tratamento. O Ihram, a entoação do atendimento (talbiya), o Tawaf, o Sa’i, o Wucuf em Arafat, entre outros atos, contêm significados profundos que o peregrino deve sentir e assimilar por meio dos seus sentidos.
A primeira obrigação do Hajj e o mais importante pilar é a intenção sincera, considerada para a sua validade: “E lhes foi ordenado que adorassem a Deus com sinceridade e devoção” (Alcorão Sagrado, 98:5). Foi relatado que o Mensageiro de Deus (Maomé) disse: “As obras vêm determinadas pelas intenções. Assim, cada pessoa alcançará o que busca, de acordo com suas intenções. Desse modo, aquele cuja emigração acontecer pela causa de Deus e do Seu Mensageiro, essa emigração será considerada como sendo pela causa de Deus e do Seu Mensageiro. Porém, aquele que emigrar em busca de algum benefício material, ou para desposar uma mulher, sem dúvida a sua emigração será para aquilo para o quê emigrou.”
O Hajj exige o abandono de todas as coisas ilícitas. É representado também com o Tawaf, o Sa’i permanente, o Wucuf contínuo em Arafat, pelo temor a Deus e o sentimento de retidão, com o apedrejamento de todos os demônios, prevalecendo as condutas retas no caminho da orientação – com o sacrifício da paixão da alma propensa à prática do mal. Quanto ao Tawaf (circungiração), é exigido da pessoa que permaneça neste estado, ao redor da vontade de Deus, e no local de sua lei, sem ultrapassar seus limites, sem se desviar dela, continuando a conservá-la, movendo-se no seu círculo, como se deve.
O Wucuf em Arafat, é para que o peregrino se inspire nas lições benéficas e nos inúmeros exemplos – que são muitos – a serem lembrados no Dia da Grande Congregação , quando as almas estarão reunidas à procura de perdão divino. Essa a imagem representada pelas ondas de pessoas que se chocam no mar do Hajj profundo, observando todos, ricos e pobres, reis e súditos, patrões e empregados, o uso da vestimenta do Ihram. Esta vestimenta simples, formada por dois panos de linho sobrepostos, nos lembra a mortalha e traça um retrato do futuro assombroso daquele dia, que Deus Altíssimo descreve da seguinte maneira: “No dia em que a presenciardes, cada nutriente esquecerá o filho que amamenta; toda gestante abortará; tu verás os homens como ébrios, embora não o estejam, porque o castigo de Deus será severíssimo” (Alcorão Sagrado, 22:2).
Dentre os benefícios da permanência em Arafat esta o estreitamento dos laços da unidade moral da Nação Islâmica junto da qual se dissolvem as diferenças de cor, de língua, de etnia, de seitas e das vestimentas. Todos ficam livres das vestimentas da vida terrena e seus atrativos para se apresentar da mesma forma e se encontro com um só objetivo, entoando o mesmo cântico, o símbolo do atendimento ao chamado divino, que retumba nos ouvidos daquelas multidões à procura do perdão, fazendo renascer em seus corações a força e a confiança no poder da Comunidade e sua possibilidade de se apegar aos vínculos de Deus, reconquistando a sua glória e honra.
O ajuntar das pedras do local sagrado, durante o pernoite, é um símbolo e um exercício de agregar as armas materiais necessárias e prepará-las para a época propícia da luta contra o mal, seguindo as palavras de Deus Altíssimo: “Mobilizai todo poder que dispuserdes, em armas e cavalaria, para intimidardes, com isso, o inimigo de Deus e vosso” (Alcorão Sagrado, 8:60).
A marcha, na manhã do dia dez do mês lunar de Zul Hijja – manhã do ‘Id Al Adha ou “Festa do Sacrifício” – acontece com os peregrinos seguindo para Mina, onde cumprirão as etapas finais dos ritos do Hajj. Ela simboliza a marcha do exército islâmico em direção ao campo inimigo, para conquistar a vitória. Chegando ao local pré-definido, ocorre o apedrejamento de Jamrat Al-‘Akaba. É a primeira atividade que ocorre em Mina, na manhã do abençoado dia do ‘Id. Trata-se de um símbolo claro do início do ataque efetivo contra o inimigo e participar da batalha exige sempre o martírio de alguns combatentes empenhados na luta. A oferta e o sacrifício de animais, nesse dia, é um símbolo disso, além de, ao mesmo tempo, lembrar a história do profeta Abraão, a quem foi ordenado pelo Altíssimo sacrificar seu filho, Ismael, como oferenda a Deus.
Após a realização desse ato de sacrifício, vem a vez da terceira obrigação, ou seja, cortar os cabelos, um símbolo da eliminação dos vestígios de inimizade, agressão e vaidade, representando, também esse ato a eliminação de todos os erros que o peregrino possa ter praticado antes da visita à Casa Sagrada de Deus.