Abençoado barco negro ainda que inóspito, sagrado o alimento que em nada parecia o néctar ofertado à mesa na casa de Homs, bendita batida da durbake e o lamento triste do imigrante, já saudoso, encolhido em seu canto ainda em meio do oceano.
Benfazeja poção de ervas da senhora ao lado que matou a febre que me impediria pisar a terra prometida, ver as palmeiras do Brasil, lembrança das ruas de Damasco.
O colo materno protegia os pequenos do medo das intempéries, dividiam as parcas porções de água, abafavam o choro para que alguns pudessem dormir, já que conseguiam.
Nada mais souberam de onde partiram, nada sabiam de onde deveriam chegar, só sabiam quem morreu e quem nasceu no tenebroso, mas também alvissareiro navegar.
Se tudo vale a pena, saberão depois.
Em 40 dias irão respirar, ver o sol, sentir o cheiro de mato e tomar o café da hospedaria, assinar qualquer coisa em confiança, e seguir de trem pela serra do mar, primeira visão do olhar esperançoso.
Aguardam lagrimas e abraços, o abrigo e o trabalho, a mala, a matraca e a caderneta.
“Olho para o Céu e para todos os lados, quero entender o que mereço e o que devo, choro de saudade e de alegria, a mesma lágrima escorrida divide a face ao meio, como os dois períodos da minha vida.
Prometo não julgar o que foi pior ou melhor, os dois me acompanharam, por onde andei”.
Abençoado barco negro e carrancudo, manchas de ferrugem, onde tudo começou, não mais que de repente.
Escrito em 2007 por Rubens Anauate