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A Imigração: Obsessão pessoal... Obsessão geral

 Imprimir Arabesq | 03/06/2009 A | A
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Consciencia Jeans

Tamim Daaboul
Portal Arabesq

Imigrar, para mim, jamais foi uma obsessão, apesar de ter tocado a minha vida, de uma forma ou de outra.

A minha relação com esse fenômeno começou na infância quando soube do meu pai que um dos meus tios, que havia imigrado para Argentina, pedira que eu fosse adotado por ele, pois não tivera filhos. Soube que meu pai recusou a idéia com veemência e com certa ira, já que o mecanismo do pedido o fez crer que o meu tio trata o seu sobrinho tal como ovelha que pode ser vendida e comprada sem conseqüências psicológicas ou sentimentais.

No vilarejo que assistiu a minha infância e a minha adolescência ouvi falar muito de cartas que vão, de dinheiro que vem e de relações incessantes entre América “Amalca” e o nosso pequeno vilarejo, o que me fez acreditar, como muitos no lugarejo, que o ouro na “Amalca” estava jogado nas ruas, esperando quem o recolhesse. Porém, me surpreendi com a volta de um tio da Argentina e me choquei quando não demorou muito para reivindicar a sua “parte” da nossa modesta casa, alegando que auxiliou meu pai na colocação dos alicerces da casa antes de imigrar para Argentina. Naqueles dias, as conversas sobre cartas e ausências haviam diminuído nas noitadas que reuniam familiares, amigos e parentes. Diminuiram, também, e de forma significativa, as receitas das famílias, vindas dos países para onde alguns de seus membros imigraram. Foi quando comecei a questionar: “por que o meu tio voltou de mãos e bolsos vazios da terra do ouro, tendo que nos compartilhar a casa para poder sobreviver? e por que diminuiu o volume de dinheiro vindo da “Amalca” para as famílias?

Posteriormente, estudei a literatura imigrante, principalmente a poesia composta por poetas que viviam como imigrantes na América. Os livros escolares destacavam a saudade e a nostalgia sofridas pelos imigrantes e pelos poetas distantes de sua pátria. E já que também fui tocado sentimentalmente pelas plangências compostas por esses poetas, outra questão começou a martelar a minha cabeça: “já que os poetas penam tanto nos países imigrados e já que padecem de saudade e de nostalgia por que não retornam?. Naquele momento não achei uma resposta convincente para essa pergunta e não me esforcei seriamente para achá-la.

No início de 1990 fui designado pelo ministério da cultura sírio para o cargo de diretor do Centro Cultural Sírio em São Paulo. Antes de começar o meu trabalho li todo o que havia de disponível de livros e de estudos sobre a imigração sírio-libanesa para o continente americano, principalmente para o Brasil, para ter alguma idéia sobre a natureza das pessoas e do ambiente com os quais teria que conviver e tratar. Em tudo que li repetiam-se “a saudade e a nostalgia” e as críticas dirigidas à ocupação turco-otomana, que empobreceu o país, levando sua gente a imigrar. Além disso havia estudos e opiniões onde predominavam impressões sentimentais e poéticas e explicações carentes de análise documentária. Não são muito diferentes do que eu li nos livros escolares. Nesse processo de leitura li um artigo do escritor e do grande historiador, o falecido “Chaker Moustafá”, onde ele observa que a lava de imigrantes começou a debandar rumo a América quando um “louco qualquer subiu para o pico de uma montanha, gritou a fim de juntar as pessoas ao seu redor e bradou:”seguem- me”. E adentrou o mar, seguido pelos outros.

Peguei o avião rumo ao Brasil. Foi uma longa viagem. Após algumas horas de vôo me senti incomodado e enfadado, apesar dos bons serviços oferecidos aos passageiros e dos meios de entretenimento disponíveis a bordo. Queria apressar o tempo para poder me livrar desse sentimento que tomou conta de mim. Sentimento esse composto por uma mistura de preocupação, incômodo e tédio. Consegui me libertar dessa situação, somente quando pairou na minha cabeça a idéia da comparação, então me perguntei:” como pode a gente de “Bilad El-Cham” (A Grande Síria), dentre os quais a gente da minha cidade que imigrou para as Américas e Austrália na segunda metade do século XIX e início do século XX, suportar uma longa e cansativa viagem marítima e enfrentar os perigos iminentes até chegar a essa terra longínqua? Quais são os verdadeiros motivos que os levaram a enfrentar tal aventura? 

A partir daquele momento e a partir daquele questionamento o assunto se transformou em obsessão. E assim que cheguei à “Terra do Ouro” comecei a procurar.

Com o passar do tempo a minha obsessão foi aumentando e progredindo. Misturei-me com os imigrantes e seus filhos e netos. Li o que escreveram nos seus jornais e livros, além de algumas cartas recebidas de seus parentes na pátria mãe. Ouvi suas histórias interessantes e me inteirei dos detalhes de suas grandes aventuras. Examinei os lugares que eles freqüentam. Vivi suas vidas. Entrei nas grandes instituições por eles construídas. Estudei suas leis e legislações e os motivos que os levaram a adotá-las.

Foram oito anos estudando o fenômeno migratório – motivos, particularidades e seus reflexos sobre os imigrantes. Diante de mim passou um filme repleto de mistérios, lições e de descobertas das entranhas do ser humano. Um filme épico, cujas imagens são divididas entre o trágico e o cômico, entre o sonho e a realidade, entre o sucesso e o fracasso. Um filme feito de sangue, lágrimas, fome e dor. Feito de gula, de êxito, de realizações e de vitorias. Feito de alegria e de tristeza.

Após oito anos, e através de uma dúvida colocada pela minha pequena filha, descobri que eu não estava mais fora das imagens desse filme – epopéia-. Estava em permanente contato com ele. Mais do que isso: alguma coisa de mim rumou para o seu interior e a qualquer momento posso fazer parte de seus ingredientes. Dessa forma comecei uma nova viagem de mergulho, porém, desta vez, para dentro de mim, onde descobri que temos as mesmas profundezas. Então me assegurei, surpreendido por esse flagrante.

Estou apto a me transformar num seguidor desse “louco” que na época de colonizaçã

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Tamim Daaboul
Jornalista pela Universidade de Damasco, analista político e diplomata. Foi Diretor Editorial do Departamento Cultural do Jornal “Tishreen”, Diretor do C.C.A.S. em São Paulo, Diretor do programa Arabesco e Autor do Documentário “O Caminho do Ouro” sobre a imigração árabe ao Brasil.
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COMENTÁRIOS
 
Dai 6/3/2009 5:36:49 PM
O senhor nos deixou tão entusiasmados com a história de sua imigração que quando terminou senti a falta de um final. Como termina essa incrível história (interrogação). Afinal, o senhor encontrou a resposta do por que todos que imigravam retornavam (interrogação). E o senhor, continua no Brasil ou também retornou (interrogação). Parabéns pela história....incrível!!!!

EDUARDO FELICIO ELIAS 6/16/2009 10:16:02 PM
Prezado Jornalista TAMIN DAABOUL, num breve relato, foi abordado o maior problema da imigração para os nossos ancestrais. A ocupação otomana criou danos irreversíveis aos que imigraram, sendo que muitos nem mesmo retornaram para visitar a terra mãe motivados pela lembrança da época, mas o maior dano foi causado aos que permaneceram, pois, após o domínio otomano, veio o domínio francês,e ambos procuraram atrasar o que puderam os países árabes dominados. Felizmente, hoje constatamos que os países árabes então dominados superaram os entraves, e pela tenacidade de seu povo e governantes, num lapso de só 60 anos estão recuperando quase três séculos de bloqueio culturalpromovido pela dominação. Parabéns pela matéria, precisamos de mais informes acerca de suas observações, atuais, numa comparação de quem viveu e vive a atualidade nos dois polos. Abraços, EDUARDO FELICIO ELIAS Presidente da FEDERAÇÃODE ENTIDADES ÁRABES BRASILEIRAS DO ESTADO DE SÃO PAULO - FEARAB-SP{position:absolu

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