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Finanças islâmicas pt-1 (introdução e conceito)

 Imprimir Arabesq | 30/04/2009 A | A
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Consciência Jeans

Jeremy Harding, London Review of Books
Tradução: Caia Fittipaldi

Em setembro passado, quando a poeira e as ruínas dos guichês de atendimento aos clientes começaram a desabar sobre os cofres vazios do subsolo dos grandes bancos ocidentais, ouviu-se uma nota de satisfação, emitida pelos banqueiros do mundo árabe.

Instituições financeiras orientadas pelos princípios do Islam, disseram eles, são praticamente imunes a crises de inadimplência. Muçulmanos devotos tomam e recebem empréstimos sob determinadas condições; podem, inclusive, comprar e vender dívidas sob a forma de bônus 'islâmicos', mas praticamente toda e qualquer outra modalidade de compra e venda de títulos de dívidas é desprezada. O Banco Al Rajhi, com sede na Arábia Saudita, e a Casa Financeira do Kuwait apresentaram lucros impressionantes em 2008. Ambos estiveram sob duro escrutínio em 2009, mas sua capacidade para enfrentar a recessão que se avizinhava depois do fim da bolha de crédito jamais foi posta em dúvida.

Diferentes da maioria dos bancos no Oriente Médio, os bancos Al Rajhi Bank e Kwait Financial House (KFH) são negócios que seguem a Xaria – o que significa simplesmente, que seguem um conjunto de regras perpetuamente atualizáveis conhecido como "Xaria [1]" – literalmente, "caminho para a fonte de água" – que orienta a vida dos muçulmanos. A Xaria serve, principalmente, como guia para a conduta pessoal, embora várias de suas regras estejam formalmente incluídas, como lei positiva, nas Constituições da maioria dos Estados muçulmanos. Baseia-se, como sempre se diz, na verdade revelada e manifesta no Corão e em histórias exemplares narradas nos Hadiths, as falas e os feitos do Profeta. Mas a Xaria é influente, sobretudo, porque esses textos fundantes são constantemente lidos e reinterpretados por pensadores islâmicos modernos, que reinventam antigas tradições ou fixam novas. Independente de como cada muçulmano se posicione em relação à Xaria, número cada vez maior de muçulmanos cuidam para não se afastar um passo do caminho justo, no que tenha a ver com assuntos bancários e financeiros.

A população muçulmana global é de 1,3 bilhão de pessoas – praticamente 1/5 da população do planeta – e, com um renascimento da religião nos últimos vinte ou trinta anos, o caminho do Islam é, cada dia mais, uma via de pensamento pela qual transita muita gente. São pessoas e povos muito diversos, de diferentes partes do mundo; uns têm dinheiro para queimar, outros praticamente não têm dinheiro algum, mas qualquer muçulmano que tenha meios medianos de sobrevivência é hoje alvo potencial para que os bancos lhe ofereça produtos de varejo que consideram a Xaria: contas correntes, esquemas de financiamento e planos para comprar imóveis residenciais.

A expressão "finanças islâmicas" engloba várias atividades numa definição muito genérica. O mesmo é verdade, no universo das finanças, também para as próprias palavras "Xaria" e "Islam". A Xaria não é um corpo único e estável de jurisprudência; há várias escolas muçulmanas de interpretação e consideráveis discordâncias entre elas. "Islam" – termo amplo, na interpretação dos não-muçulmanos – é palavra quase mágica, nos quarteirões financeiros e bancários: ela diz a banqueiros e operadores de mercado que, todos os dias, por alguns minutos, eles têm de desligar-se do alarido do dinheiro que só fala, e sintonizar-se com o dinheiro que reza.

Mas por que se preocupar com isso, se as finanças que seguem a Xaria equivalem a menos de 1% do valor total das ações, papéis e depósitos bancários do mundo que foram cerca de 170 trilhões de dólares em 2007? Afinal hoje há, apenas, em torno de 700 bilhões de dólares em ações, papéis e depósitos bancários islâmicos.

O que fascina os mercados em relação às finanças islâmicas, contudo, é o crescimento dramático, nos últimos anos; e previsões confiáveis de que devam continuar crescendo ao ritmo de 15-20% ao ano. O ânimo de muçulmanos medianamente prósperos e crentes – e de uns poucos não-muçulmanos traumatizados, desiludidos e temerosos – são diferentes. Os mercados vêem com interesse a promessa para alcançarem estabilidade e transparência, e um senso de proporção ao tratar o dinheiro: olho no olho, diga o que quer, mas admita que você tem muitas dúvidas sobre o valor de face dos papéis. É posição pouco sofisticada, mas desde o início da atual crise são poucos os que ainda acreditam nos muito sofisticados guardiões da moderna cultura ocidental do dinheiro. Nesse sentido, o crescimento de produtos 'aprovados pela Xaria' é também um desafio a ser enfrentado pela fé não oficial, politeísta, que os britânicos têm nos paraísos fiscais, que leva ao culto dos mercados em geral e dos mercados financeiros em particular.

Uma das diferenças centrais entre o modo islâmico e as abordagens convencionais em relação às finanças é que nossos cultos – que sem dúvida passarão por revisão ao final da atual crise – atribuem poder sobrenatural ao dinheiro. Especialistas nesse culto ocidental não conseguem nem entender nem controlar o modo como o dinheiro funciona, mas todos admitem que há algo de mágico no dinheiro, que ultrapassa os efeitos do comércio humano (o mesmo vale para os mercados, aos quais se atribui bondade inata). Seja o que for que desejemos obter do dinheiro, entendemos, como crentes fiéis, que, no final, o dinheiro sempre se comportará bem. Vivemos sob o encanto do dinheiro, somos como que tomados por ele, nos expomos a ele como se o dinheiro tivesse os atributos – brilhante, cascateante – que teve quando choveu ouro dos c&e

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